segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

“Apenas mais um zemicídio!”

Já vimos que há um genocidio da população negra no Brasil. No entanto, como os assassinados não são famosos, esses fatos acabam banalizados. O fato é que, reconhecidamente, estes "Zemicídios" como foi bem aceutando pela autora desta excelente crítica,  estão cada dia mais frequentes. Se todos lutam por um mundo melhor para todos viverem, para quem será este mundo melhor se não tivermos pessoas? Vale lembrar que 70% da população brasileira é de afrodescendentes, contando com negros e pardos. Na argentina, exterminaram os afrodescendentes pelo orgulho do eurocentrismo. Aqui toda a nossa população tem algum sangue afro e nosso país é de extensão continental. Precisamos dizer mais?
Poderia ter feito estas observações no post anterior - Raimundo Matias Dantas Neto: da UFPE ao IML. Também queremos Justiça!, mas optei por dedicá-lo exclusivamente ao relato indignado de Bruna Machado Simões, com o qual me solidarizo e para o qual aguardamos tod@s respostas.
A questão é que o que mais me chocou em todo o relato não foi o fato de (mais) um jovem negro ter sido assassinado. Também não foi o de seu corpo ter isso encontrado no Instituto Médico Legal, com documento (exatamente a respeitável carteira de reservista!) e sem que a família tivesse sido notificada. Ou de negarem a ela o direito a ver o corpo, já que a violência não deve ser exposta e comprovada. Afinal, vítimas da tortura entregues em caixões lacrados só não se tornou prática comum na ditadura militar porque a maioria dos corpos jamais apareceu!
Raimundo era estudante da Universidade Federal de Pernambuco, mas isso igualmente não me causa espanto… Afinal, um negro, à noite, supostamente com dinheiro (ou com um laptop já comprado), só pode ser ladrão! Esses dois fatos anteriores levam a crer, igualmente, que ele não estivesse mal vestido… E daí? Se os assassinos eram ladrões profissionais, estar bem vestido seria um atrativo a mais. Por outro lado, se ele foi executado por policiais profissionais, nesse caso os dreds irreverentes podem ter sido encarados como um convite à violência. Ninguém pode achar que eles tenham sido parcialmente arrancados por mero acaso! Nesse “castigo” há um claro sinal de preconceito. E o pior é que nada impede que ele tenha sido infringido por outros negros! Outros negros de “alma branca”, como já foram classificadas (e se orgulharam disso!) personalidades famosas deste País.
O fato de ele ter saído de casa por volta das 19 horas de quarta-feira, dia 2, e seu corpo só ter sido encontrado (ou deveríamos escrever “desovado”?) na praia na madrugada de quinta para sexta-feira, depois de o desaparecimento ter virado notícia em programa da televisão e nas redes sociais, também não deixa de ser curioso… Afinal, o que terá acontecido com Raimundo ou com seu corpo durante essas mais de 24 horas? Já a exasperação da perita ante o que classificou de ”agonia” para verem o corpo está “dentro dos conformes”, a meu ver. Como explicar, afinal, a discrepância entre o laudo de um inocente afogamento e os visíveis sinais de espancamento e de assassinato visíveis no corpo? Ah, que saudade do tempo dos caixões lacrados…
Mas o que de fato me causou mais revolta foi um detalhe que Bruna escreveu quase de passagem: “Estão tratando o caso como mais um preto e pobre assassinado. Lá, eles chamam ‘ZÉMICIDIO’; apenas mais um na estatística”.
A gente sabe sobre as estatísticas. Na verdade, tudo que escrevi acima não foi nada mais que tergiversar sobre os componentes desse tema. Imagino que Zémicídio seja o equivalente ao “john doe” dos seriados policiais estadunidenses, mas para mim a expressão era nova. E aí na minha cabeça bateram, ao mesmo tempo, o longínquo “Escuta, Zé Ninguém”, de Reich, e o “Los Nadies”, de Galeano, que acabamos de postar em nova versão, exatamente na sexta-feira, quando o corpo de Raimundo foi localizado por sua família.
Raimundo Matias Dantas Neto não era um “Zé Ninguém” (aliás, ninguém o é!). Ele não era um “Nada”. Era um jovem universitário, sonhando com um laptop e com a pelada do dia seguinte. Mas ele era negro, usava dreds e morava no Brasil!
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Um explicação: este post não está classificado como Blog Especial por ter sido escrito por mim ou algo parecido. Esta classificação é por nós usada quando queremos chamar a atenção para alguma informação. E, neste caso específico, essa classificação expressa acima de tudo a minha vontade de literalmente gritar a minha indignação e a minha revolta. TP.

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