sábado, 16 de junho de 2012

Povos de Terreiro aprovam propostas à plenária final da Cúpula dos Povos


Em Encontro Mundial, praticantes de religiões de matrizes africanas, da umbanda e povos indígenas discutem relação com a natureza e cobram respeito aos seus cultos

A Cúpula dos Povos na Rio +20 vai além do debate a respeito do limite dos recursos naturais e das mudanças climáticas. Ao longo dos próximos dias, mais de 30 espaços autogestionados discutem as diferentes relações do homem com o ambiente.

Nesta sexta, 15, foi a vez dos praticantes de religiões de matrizes africanas, da Umbanda e dos povos originários darem início às suas atividades na Cúpula, no Encontro Mundial dos Povos de Terreiro na Rio+20. Eles discutiram problemas, constrangimentos, demandas e propostas relacionadas às práticas das religiões da natureza em áreas protegidas.

O resultado das discussões e conversas gerou a Carta do Rio, um dos documentos oficiais que serão apresentados na plenária final da Cúpula dos Povos. Confira a carta na íntegra abaixo:

ENCONTRO MUNDIAL DOS POVOS DE TERREIRO NA RIO+20

CARTA DO RIO


As práticas religiosas na natureza têm origem milenar, ocorrendo em inúmeras vertentes culturais, entre as quais estão as religiões dos povos de terreiro, como os de matriz africana e os povos originários. Essas práticas estão voltadas para a reverência às forças da natureza, como as matas, rios, cachoeiras, praias e montanhas, além de estradas, encruzilhadas e trevos. Reconhecendo na natureza suas divindades, esses povos desenvolvem um profundo respeito e comprometimento em relação à sua proteção, concebida como espaço sagrado.

Os Povos Originários sofrem com o não reconhecimento da cultura indígena pela sociedade. Para os índios, a relação do homem com a natureza, como afirma Carlos Tukano, representante dos Povos Originários no SEAC, é de preservação, porque os índios sempre tiveram pelos Deuses das florestas, da água e do ar e de todos os elementos, respeito e reverência: “Nossa história, entretanto, é como um copo quebrado que estamos tentando reconstruir para passar aos nossos filhos e netos. Entre as nossas iniciativas, temos a Aldeia Maracanã, o Centro Cultural Indígena no antigo Museu do Índio, onde praticamos a nossa religiosidade”.

Ocorrem, entretanto, com alta frequência, situações de constrangimento e violência quando os religiosos buscam parques e outras áreas de proteção da natureza, tais como intimidação por parte de diversos atores sociais, impedimento, perseguição, violência física e verbal, falta de segurança e expulsão de áreas naturais públicas. Nos últimos anos, houve uma relativa perda de costume de ir aos espaços naturais públicos para cultuar os orixás, voduns, inquices e encantados, porque a ameaça de violência por parte do Estado e de antagonistas da prática religiosa afro-brasileira levou a isso. Alguns têm utilizado áreas privadas. Todavia, há consenso de que isso não é solução, pois a liberdade religiosa é um direito e não se deve pagar para poder exercê-la.

A esses problemas, identificados também nas oficinas do Núcleo Elos da Diversidade /Programa Ambiente em Ação da Superintendência de Educação Ambiental da Secretaria de Estado do Ambiente do Rio de Janeiro, em parceria com a UERJ e os povos de terreiro, entre 2011 e 2012, somam-se outras formas de violência no campo simbólico, como a desqualificação dessas religiões nos meios de comunicação social, proibição ou desqualificação dessas práticas culturais nas escolas e outros espaços, como consta no primeiro boletim de divulgação do Núcleo Elos. Mais de 400 religiosos que participaram dos encontros no Estado do Rio de Janeiro falaram da necessidade de atuar internamente às religiões, em busca de maior união entre os cultos, e reconhecimento de direitos e deveres do cidadão em relação à cultura e uso dos espaços públicos, bem como o enfrentamento do preconceito,intolerância e constrangimento que os religiosos sofrem em suas práticas. Os participantes denunciaram a repressão geral do Estado e a repressão de evangélicos. Os debates sobre os constrangimentos vivenciados destacaram ainda dois aspectos: as reclamações e acusações de vizinhos aos terreiros e os preconceitos que sofrem crianças e jovens que se assumem praticantes da religião. Isso produz discriminação em escolas e de costumes, e problemas na socialização em fase decisiva para a constituição das identidades e grupos de pertencimento por parte de qualquer pessoa.

Foi destacado o impedimento que sofrem de acesso a áreas de cachoeiras, rios e praias que são apropriadas de modo particular, infringindo as leis. A ênfase dos debates girou em torno do direito público a espaços naturais, mas denunciaram que os espaços seguros e limpos estão em áreas privadas cujo acesso é pago. Isso é visto como uma alternativa que não resolve o problema, tanto por ferir direitos constitucionais quanto por privatizar uma prática que deve ser livre para os adeptos dos cultos afro, independente de condição econômica para realizá-la.

Outro ponto mencionado foi a constatação de que a população atribui tudo o que acontece de destruição e sujeira nesses espaços e na rua aos cultos afro, o que é uma clara manifestação de preconceito, apesar de reconhecerem que há parcela dos praticantes que estão mal orientados em relação a cuidados no uso de espaços públicos e à conservação da natureza.Os religiosos discutiram as causas dessa situação, reconhecendo que o preconceito ocorre por desconhecimento dos fundamentos e valores mais profundos das religiões de matriz africana, e uma associação indevida com o “demônio” de outras religiões.

Além disso, reconheceram que uma parcela de responsabilidade da imagem negativa em torno dessas práticas religiosas decorre de usos inadequados de materiais e desconhecimento de práticas de conservação do ambiente, além da negligência e omissão por parte do poder público, que não institui políticas públicas de coletas regulares de resíduo em áreas de uso tradicional.

Esses constrangimentos frequentes tornaram-se “naturais” com base em preconceitos e desigualdades sociais. Na visão dos participantes, a naturalização da desigualdade e do preconceito deve ser enfrentada e superada por meio da mobilização dos religiosos, adoção de práticas sustentáveis e criação de políticas públicas que assegurem a igualdade religiosa e o respeito à diversidade cultural.
Encaminhamentos

É fundamental que o Poder Público atenda as demandas da sociedade civil e dos povos de terreiro, garantindo o direito do cidadão à realização do culto ao sagrado na natureza, à proteção contra violência física e agressão verbal e ao acesso a espaços naturais limpos, sinalizados e acessíveis. É fundamental que as políticas públicas de educação, cultura e comunicação social contemplem as culturas indígenas e as culturas de matriz africana e umbanda, garantindo o acesso desses grupos sociais aos meios de comunicação social, sua presença e seus conteúdos nas instituições de ensino, fóruns de decisão e controle social. Que haja ética no reconhecimento da religiosidade dessas culturas.

O enfrentamento deve ser feito pela reversão desse quadro, aumentando a mobilização e articulação do povo de terreiro por meio da comunicação, o intercâmbio e ações educativas. Outro aspecto é a necessidade de cada pessoa superar o medo e se assumir como religioso e defender seus direitos constitucionais, denunciando a intolerância e participando do processo político e educativo de superação das desigualdades sociais, preconceitos e intolerância. Essa constatação só fortalece a necessidade de se constituir Espaços Sagrados de uso público e reforçar a luta para que as práticas religiosas sejam respeitadas também em outros espaços e vias públicas, como praias, ruas, praças e cemitérios.

É recomendada a criação de redes e formas de comunicação interna, a realização de oficinas ensinando usos de materiais ecologicamente adequados e a produção de materiais didáticos para o povo de terreiro. É necessária a união das religiões para que consigam dialogar em condições de igualdade não só com o poder público, mas também com os outros setores da sociedade, para garantir que o projeto se consolide enquanto política pública e se fazer respeitar por aqueles que manifestam intolerância.

Há a necessidade de que cada praticante exerça os seus direitos sem medo, busque apoio legal na garantia de acesso a espaços naturais e da livre manifestação religiosa, e que as companhias de limpeza urbana apoiem o uso de encruzilhadas e de áreas naturais.
A mobilização dos povos de terreiro deve estar vinculada também à construção das políticas públicas para a cultura, educação e meio ambiente. É necessário ampliar o acesso a cartilhas e materiais educativos existentes (Decálogo das Oferendas, Elos de Axé, Oku Abó) e produzir novos materiais; estimular o acesso a mudas e o cultivo de ervas nas casas religiosas, objetivando a preservação do conhecimento da tradição sobre o uso das folhas nos rituais, como também o respeito às práticas da coleta em áreas protegidas; fomentar a função dos consagrados como sacerdotes/sacerdotisas das folhas nas comunidades de terreiros.

Há necessidade de se conhecer os direitos e deveres do cidadão em relação à educação, cultura, religião e meio ambiente, divulgando-os e fazendo encontros para explicá-los e capacitar os religiosos a utilizar os canais e instrumentos legais de participação do cidadão na defesa de seus direitos. Muitos enfatizaram que a criação de um espaço religioso não é nenhum presente e sim um direito, alertando, porém, que isso não pode significar a restrição a poucas áreas. A luta é por tais espaços e também por acesso a outras áreas públicas (encruzilhadas, cemitérios, etc.).

Sugeriu-se ainda que esse trabalho no Rio de Janeiro fosse expandido nacionalmente, uma vez que o quadro de repressão e intolerância no estado é similar em todo o país e isso deve ser enfrentado e superado.

Rio de Janeiro, 15 de junho de 2012.
Foto: Fora do Eixo

sexta-feira, 15 de junho de 2012

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Oficina/roda de Jongo no XI CAFÉ DA MANHÃ DE PAI OXOSSE

Convidamos todos para OFICINA/RODA DE JONGO no XI CAFÉ DA MANHÃ DE PAI OXOSSE




Encontro vai discutir
POLÍTICAS PÚBLICAS PARA
COMUNIDADE DE TERREIRO

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Dia da África é comemorado na Câmara dos Deputados


Por Drielly jardim

A Frente Parlamentar de Amizade e Cooperação com os Países Africanos, presidida pelo deputado Edson Santos, realiza hoje (22), às 16h, no Salão Verde da Câmara dos Deputados, ato solene em comemoração ao Dia da África, comemorado em 25 de maio.

A solenidade, que conta com o apoio da Fundação Cultural Palmares (FCP) e do Grupo de Parlamentares Negros do PT (Nupan), faz parte das atividades em comemoração ao

Dia da África que conta, ainda, com o I Encontro de Estudantes Africanos em Brasília, organizado pelo Centro de Convivência Negra (CNN) e realizado no campus da UnB, desde segunda-feira (21), onde são realizados debates e atividades culturais alusivas à data e à histórica relação entre Brasil e África.

Símbolo de luta – Em 25 de maio de 1963, 32 chefes de estado africanos reuniram-se em Adis Abeba (Etiópia) para debater ideias e soluções contra a subordinação a que o continente estava submetido havia séculos (colonialismo, neocolonialismo e “partilha da África”).

Durante o encontro, foi criada então, a Organização da Unidade Africana (OUA), conhecida atualmente como União Africana. A Organização das Nações Unidas (ONU), vendo a importância desse encontro, instituiu, em 1972, o dia 25 de maio como Dia da Libertação de África. A data simboliza a luta dos povos do continente africano pela sua independência e emancipação e representa a data da Libertação da África.

Programação Dia da África
22 de maio, às 16h – Solenidade no Salão Verde da Câmara dos Deputados ;
25 de maio, às 8h – 1º Encontro dos estudantes africanos em Brasília
Mesa Redonda com o tema “Estudantes africanos na Diáspora: Antes e Depois (País de Origem e Brasil)”.
Local: Instituto de Química/UnB

sexta-feira, 11 de maio de 2012

XVI Marcha Noturna pela Democracia Racial


Deborah Cristina Paula


Pelo 16º ano consecutivo, acontece no próximo dia 12 de maio (Sabado) a Marcha Noturna Pela Democracia Racial, manifestação do movimento negro de São Paulo contra o racismo e todas as formas de discriminação. A atividade é realizada na capital paulista desde 1997 na véspera do dia 13 de maio, data da assinatura da Lei Áurea, considerado o dia nacional de denúncia contra o racismo.
O tema deste ano da marcha é “Racismo é Crime."                                            
                                                       
       A marcha é promovida pelo Instituto do Negro Padre Batista e conta com o apoio de dezenas de entidades. Vestidos de preto e com tochas na mão, os participantes percorrerão o centro da cidade, ao som de atabaques, passando por pontos históricos ligados à luta dos negros contra a escravidão e em defesa da plena cidadania.
A concentração para a marcha será na Rua do Carmo, em frente a Igreja Nossa Senhora da Boa Morte ;no centro, a partir de 18 horas. Dalí ela seguirá pelas ruas: Clovis Bevilacque, Praça da Sé,  Roberto Simonsen, Santa Teresa, Wenceslau Brás, Praça da Sé, XV de Novembro, Praça Antônio Prado, Avenida São João,Rua Líbero Badaró viaduto do Chá, Praça Ramos, Rua Conselheiro Crispiniano e encerra-se Largo do Paissandu, onde está localizada a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

História e Roteiro da Marcha

A igreja da Boa Morte, ponto de partida da Marcha, é historicamente conhecida por ser o local onde escravos “reveldes” e condenados recebiam as últimas “bênçãos” antes de serem executados. Desde 1980 os agentes  de Pastoral Negros do Brasil tem também sua sede nacional.
Saindo da Rua do Carmo, ma Marcha sobe a Rua Tabatinguera, nome indígena de origem Caiubi. Na esquina destas ruas, há mais uma lembrança: as crianças abandonadas deixadas ali eram acolhidas e batizadas pelo Birspo local. Este recolhimento passo a ser feito depois pela “Roda dos Enjeitados”, construída em 1924 pela Santa Casa.
A rua Tabatinguera gurada também a memória da primveira forca de São Paulo, transferida depois para o bairro da Liberdade no século XVIIi. A Praça João Mendes é outro espaço visitado, destacando-se a Igreja  Nossa Senhora dos Remédicos, construída em 1727, que servia como local de encontro de abolicionistas como José Patrocínio, Luiz Gama e Antonio Bento. No local da antiga igreja foi construído o Fórum João Mendes e, próximo a este, pode-se avistar também o Largo Sete de Setembro, antigo Largo do Pelourinho, instalado no início do século XIX entre a Rua da Glória e a Rua da Forca (atual Av. da Liberdade).
Depois, a Marcha prossegue pela Praça da Sé (onde havia um Pelourinho no Séc. XII). Seguindo para o Largo de são Francisco onde se localiza a Faculdade de Direito da USP, que ainda não tem Cotas para Negros(as). Depois a Marcha segue para a Rua São Bendo, chegando a Praça Antonio Prado esquina com Quinze de Novembro (antiga Rua do Rosário dos Homens Pretos), onde se pode ver  o local onde existia a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos,  em 1724 ( transferida para  para o Largo do Paysandu no início do Séc. XX).
O trajeto segue pela Rua Líbero Badaró, Viaduto do Chá e Praça Ramos, onde fica o Teatro Municipal, local onde nasceu o MNU – Movimento Negro Unificado em 1978. A camihada continua pela Rua Conselheiro Crispiniano, chegando ao Largo do Paissandu, onde se localiza a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.

A Marcha pretende iniciar o primeiro minuto do dia 13 de maio como um protesto contra o racismo e todas as formas de discriminação.

*Todos os dados foram extraídos do  Projeto de Mestrado do Padre José Enes de Jesus, presidente do Instituto do Negro Padre Batista,  entidade que, juntamente com outras organizações dos movimentos negro e popular, promovem a Marcha.

SERVIÇO:
XVI Marcha Noturna Pela Democracia Racial.
DIA: Sabado, 12 de maio de 2012.
HORÁRIO: A partir de 15 horas. Concentração
CONCENTRAÇÃO: Rua do Carmo – em Frente a entrada do Poupa-tempo da (Sé) centro.
Saida da Caminhada: 18:00 hs
INFORMAÇÕES: Instituto do Negro Padre Batista – (11) 3106-7051